sábado, 21 de janeiro de 2012

A Tradição Anda Parada

Ainda é festa, Agosto não termina
-Pelo menos até Setembro-
O dia de hoje, sim
Com ele os últimos desfiles folclóricos
É domingo, praça cheia
Congados convidados de outras cidades
Mães, crianças, Marujos, Catopês, Caboclinhos
Sol e sombrinhas
Gente vai começar a andar pelas ruas
Pelas ruas os veículos já estão
Os guardas, não
Nem também, de muitos motoristas, a educação
As gentes cortam as ruas, os veículos cortam o desfile
Muita vez é assim, quando falta do poder a administração
Já sairam da praça os cortejos
Avançaram um quarteirão
Ninguém para parar o trânsito
Nem uma mulata
Faz este papel com fibra, o bom professor João
Não, não o de mulata
Joãojoba, de bolsa tiracolo, no meio da rua fica
As máquinas freando vão, parando vão
O desfile vai, andando vai
O progresso tem pressa
As máquinas se impacientam
Roncam, chiam,
Sob a ordem dos pés de quem guia
Falam, gritam
Sob o mando da mão de quem guia
Chega mais um recurso humano
Mais um reforço, carne e osso, nesta parada
Chega Wander Vandervan, mais braços, pernas e discursos
As pessoas passam, como procissão
O tempo passa
A paciência passa com pressa
As máquinas podem passar
Jobajoão mais Vandervan somados liberam a via
Agora produto de carros multiplicados
De um busão, gente na janela, desde antes, reclamação
Da janela gente, raiva, imprecação
Discutem com os agentes improvisados da organização
Fala em cultura, Joba, fala em cultura, Wander
Falam eles em tradição
Fala um da janela, um mais fortão
Se põe quase p'ra fora dela
Bravo, indignação
Continua Wander, continua João
Os dois falam em cultura, tradição
O sujeito da janela mostra o muque
De camisa preta mostra o bração
Dá uns tapinhas nele
'Taqui a cultura'
Faz com ele uma flexão
E o fala-fala continua
Desce então o grandão
Perde um pouco o ocorrido o colorido
Se for contado a confusão
Desceram mais do ônibus, do baú busão
Nem precisavam
Perdeu feio, a tradição
Agora descansam, de branco engessados
Wander, João, sua civilização
Estão juntos lado a lado
Não dá para fazer diferenciação








          Toninho Araujo

Convite!



19h do horário brasileiro de verão

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Novidade!




1° #SarauRevolucionário no twitter
29/jan/2012
domingo, das 19 às 21h
horário de Bsb/DF




Promoção: Coletivo Revolucionário

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Minuto


Você de novo tomando meu pensamento.
Causando em mim tormento,
Fazendo durar um único momento.

Vínculo invisível
Somente eu vejo
Nos meus olhos, desejo
E do coração, despejo.

No tempo que tenho, não basto
Na mão que me estende, não basto
No silêncio que grita, não basto
No amor que desprende, não basto

Mudo o rumo, mas sigo a mesma direção
A mesma monótona dimensão
Daquilo que deveria ser não
Mas continua insistindo em vão.

Dia a dia, sou noite
Pesada
Inchada
Camuflada
Desesperada
Cansada
E, por fim, resignada.

E ainda que meu eu seja por hora todo você,
Derreto-me no sono que passa longe de mim
Eu minuto. Você o tempo.


Luciana Pimenta
@lulypim

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Da doença e do afago

Imagem originalmente disponível aqui.


Quem sabe medir o peso de uma vida,
depois de haver lidado com desamor e selvageria,
ainda lidando com a competição
numa cidade-monstro, este cíclope-orgasmo-cinza
que nos impressiona e devora -
que nos encurrala e encanta?

Quem saberia ouvir, além de toda poluição,
de cada trovão,
os sinais de que, sim,
há amor e pessoas dispostas a tal entrega?
Que o carinho é possível, a despeito de tudo?
É mais possível que as rimas sem rimas deste poema.
Que a ausência de ritmo
desta pequena peça de comunicação a qual insisto chamar de poema.

Quem sente o calor sutil do suave contato?
A pele que roça pele que...
Quem anda com pressa e consegue ainda reparar
na rosa ali no canto do canteiro
ou no verso de Florbela?

Quem esteve e está doente, mas recebe os afagos
e ainda é capaz de ser grato, aceitar este afago e a tal doença?
Amor e morte... tanto, tantas numa única vida...

Criança, estou falando de tudo.
Pega suas falhas futuras, suas decepções vindouras
e faz poema.
Risca estas linhas com lápis e palavra,
arrisque-se, arrisque sua visão ao longe,
vista suas asas e voe à luz do sol,
cegue-se e prossegue,
mas extraia desse calvário todo amor disponível.

Pega toda alegria que esse amor proporciona e junte-a a cada lágrima que derramou,
que você tenha guardado num cantinho isolado, secreto.

Quem sabe ver que é livre,
a despeito de toda dor?

Alessandro de Paula
@palavratomica

domingo, 15 de janeiro de 2012

Sobre Nós Aqui Assim, Assim.



O jeito que me tem
O jeito que me conduz
O jeito com que olha
O jeito que me seduz
O jeito com que escreve versos
O jeito com que tenta ser
O jeito com que você É
O jeito...
Esse jeito...
O meu jeito
O nosso jeito.

Andres S.A @AndresAraujo

A Trajetória



caminhei por afetos
que me abandonei
de uma ação preservada
evitação

condicionei-me aos descaminhos
que me refiz de
grotões surrados
sindrômico

corrompi minha lida
num afoito
entorpecer de descomeços
resiliênica

retive minha obra
carcomida nas mãos que aprendi
amputadas
criminoso

interrompi minha entrega
resguardei-me na morte do próximo dia
estive por dentro do que me mudei de mim
minado




sábado, 14 de janeiro de 2012

Um sentir de recordar pra sempre

Amanhecera lentamente naquele dia que parecia mais um. Joana havia saído cedo para trabalhar, como de costume. Trajava um vestido longo de uma malha fria e suave a roçar delicadamente suas formas, como se lhe acarinhasse, e sandálias que deixavam nus os seus dedos e as unhas por fazer. As horas desfilavam seus instantes rotineiros fielmente. Nada novo, de novo.
A noite aproximou-se timidamente e quente. A lua cheia mais parecia o sol a emanar calor com afinco. A única coisa que ela ansiava era um banho frio para deixar mais branda aquela temperatura que lhe vestia o corpo inteiro como se fosse uma sobreposição ao vestido trajado, formada de camadas espessas de tecido. Sim, rendeu-se a um banho nada breve e totalmente intimista.
Momentos depois, já envolvida em toalha felpuda, branca e acolhedora, ouve seu telefone celular tocar. Estava tão relaxada que pareceu ouvir sua canção preferida ao invés daquele toque. Passava das vinte e uma horas. Deitou-se em sua cama e atendeu. Do outro lado aquele que parecia recitar os mais belos versos ao falar. De voz incomparável e sedutora. De ternura diluída em cada palavra pronunciada. Era como se ouvisse sussurros. Os mais apreciáveis.
Nando era seu nome.
Conversaram durante uma hora. Eram maravilhosamente redundantes. Repetiam os mesmos discursos enamorados. Da alegria de se conhecer, do carinho sendo nutrido, das expectativas juvenis que criaram em torno de ambos. Havia um misto de urgência em se encontrarem e receio em não corresponderem ao que esperavam um do outro e daquele que seria verdadeiramente um encontro, pois os outros dois momentos em que seus olhares estiveram um frente ao outro foram tão inesperados e despreparados, que mal souberem como conduzir e acabaram por não fazê-lo.
Escreveram-se linhas transbordantes. Carinho, ternura, cuidado, respeito, desejo. Tudo perfeitamente descrito como se fossem poetas concebendo os mais belos versos. E falavam de tudo que já havia sido escrito, como se fosse algo novo, recém sentido e explanado. Mas ainda assim, tanto ele quanto ela, recebia tudo como se fosse um novo discurso. Ouvir um ao outro era de um contentamento gritante.
A conversa ia desenhando os momentos seguintes. Joana rendeu-se ao desejo de vê-lo, ainda que estivesse exausta. Nando a motivava de uma maneira inexplicável. Antes que ele a convidasse à um encontro ela já o esperava.
Ele deu-lhe quinze minutos e logo estaria lá para buscá-la pra si. Ela sentia: seria dele. Ele supôs: ele seria dela.
Livrou-se da toalha, vestiu outro longo vestido florido, bem colorido, exatamente das cores que havia de ter sua alma agora, tamanha era sua euforia. Perfumou-se, maquiou-se. Ela queria presentear os olhares dele. Ele merecia no mínimo isto.
Quinze minutos e ele chegou.
Nando estava despretensiosamente lindo. Tinha um cheiro de bons momentos e olhos de querer bem.
Joana apaixonou-se mais uma vez por ele bem ali. No meio da rua. Na mínima duração daquele instante inicial do encontro deles.
Entraram em seu carro e seguiram. Não sabiam exatamente aonde ir, mas era certo que tinha o desejo comum de ir a algum lugar onde coubesse todo aquele bem que sentiam ao estarem juntos. Ao primeiro semáforo fechado, olharam-se como se estivessem se descobrindo e seus lábios se uniram silenciosamente, levando um para conhecer o interior do outro, como se isso fosse possível naquele momento.
Foi o primeiro beijo. Perfeito. A boca de um tão bem encaixada na boca do outro, surtindo um efeito tão inebriante. Misturando aquela porção imensurável de sensações que sentiam juntos.
Uniram também suas mãos, como se estivessem protegendo aquela alegria que sentiam, para que não se desprendesse dali.
Chegaram por fim ao apartamento de Nando. Ela transpirava carinho por ele. Ele portava certa insegurança minimizada pela certeza de que a queria.
O cheiro do mar adentrou a sala e enfeitou aquelas horas como se bem soubesse que eles o queriam lá.
Aquela ventania levou o nervosismo de outrora, os pudores dispensáveis, os móveis, tudo. Restaram apenas os dois e aquele sentir exacerbado e incontrolável.
De fato não se contiveram. Ele a levou em seus braços de abraços acolhedores para seu quarto, para a cama onde dizia imaginá-la lá por diversas vezes, como num sonho, e despiu-lhe como se folheasse um livro. Delicadamente para não amassar.
Beijaram-se com uma urgência sedutora. Sucumbiram ao desejo como se estivessem de mãos atadas, inteiramente vencíveis. E foi maravilhoso. Além do que já supunham.
Disseram as palavras exatas para cada instante daquelas horas. Tocaram-se exatamente onde ambos queriam ser tocados, com a propriedade de quem conhece bem cada movimento, cada suspiro, cada sensação do outro. Como se já fossem seus há tempos.
Joana entregou-se de olhos vendados pelo prazer que Nando a fazia sentir. Ele, por sua vez, dizia-lhe através daqueles olhares tão íntimos o quão feliz estava por sentir-se dela.
Sim, eles eram um do outro e aquele desejo de sê-los desatava qualquer amarra que pudesse existir antes de se tocarem.
A paixão estava infiltrada embaixo da pele deles, ardia e umedecia insistentemente. Não havia como resistir, como não render-se. Eles eram, na verdade, mais daquela paixão que deles mesmos.
A noite seguia inversamente proporcional ao ritmo daquele desejo. Muitas horas lhes restavam sob os olhares aprovadores da lua cheia. E eles permaneceram juntos naquele movimento de se sentir. Um visitando a intimidade do outro e deixando lá um pouco de si para quando retornassem, estando presentes mesmo quando não mais estivessem. Embora já soubessem que dali em diante restaria sempre um pouco de cada dentro dos dois.
Nando a ganhara. E ela a ele. E o acaso a ambos. Não importava nada mais que aquele momento e todos os outros que queriam e sabiam que teriam ainda. Viver era o que ansiavam agora. A vida havia mudado de sabor. E agora tinha o sabor de ambos e do novo sentido que davam à paixão cada vez que se sentiam como bem desejavam...

Lai Paiva


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Insônia




Mais uma noite de insônia.
Mais um pensamento com gosto de amônia.
Mais de mim.
Assim.
Sem fim.

Mais da mente que voa.
Mais imaginação a toa.
Mais de ti.
Mas não aqui.

E no mais, me faço menos.
Provo dos meus próprios venenos.
Já não mais creio.
Anseio.
Devaneio.

Luciana Pimenta
@lulypim