quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Esvazio





impeço que o largo dos dias
seja minguado
ao afeto tardio
que trouxe remorso dos sonhos

entorpeço cada migalha
rasgada com requinte de cólera
de um amor descalço
que viveu calando-se ainda longe

se ontem era dele
meu acordar entortado
que o tempo temia
sem cabimento aprendiz

noutra hora
a poesia fazia leito
acalmando o contorno
entorpecido numa existência partida

agora caço
com retalho de alma tonta
amálgama distraída
que prego no olho cego

voltei amanhecendo-me
por onde o desejo
soube sangria e canção
refazia meu acento carcomido

entrego-me laço
que valho dentro
um monte derramado
de ser atalho por dentre ruína

findo um medo
com esquecimento atrevido
se na estaca retenho
um sentido antigo de vestir

pois em tudo
desfiz um destino aberto
que minha sina é testemunha
de resquício em toda rima



Nunca Um Bom dia Ecoou Tanto




Bom dia minha linda, ele dizia.

Bom dia minha linda, ele repetia por horas ininterruptas.

Bom dia minha linda, ele falava.

Bom dia minha linda, ele suplicava.

Por mais que repetisse, ela nunca acordava.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Escorrendo III



Escorre pela manhã
o sonho que se tornou apenas sonhado.
O sol já não mais me aquece
pois o frio me vem da alma.

Escorre pelos olhos
a dor que se tornou líquido
a ausência que se tornou dor
o vazio que se tornou o preenchimento.

Escorre pelas mãos
a palavra não dita.
Mas o pensamento continua
voando, e ao mesmo tempo, fixo.

Escorre pelo coração
o amor que eu apenas dei
e não me importa mais se a mim não retornou
porque se de mim não quis o bem
conformo-me com o aquém
e convivo sem mais ninguém.

Luciana Pimenta
@lulypim

Amo Mesmo
















                              (James Jean)


Amo-te não como querias
Nem como devia te amar
Amo-te como soube ao te ver
Como não soube deixar de amar
Amo um amor inteiro
Pra uma vida toda
E amando-te assim
É que amanheço mais tua
A cada nova manhã...


Lai Paiva
@lainepaiva

Rejunte




Eu quis fundar
Um movimento aforista
Ao seu lado
Quis bancar
Um ser de beiras ajuntadas
Esperei sua volta
Você houve fechado
O movimento se encerrou num aborto
Embrionárias palavras idas de relento
Que lancei na passagem
Cheguei ao seu olho
Peguei ali quando enxergava um descaso
Com a vida tinha um outro acaso
E na arte se fazia refúgio
Da ponte que teríamos
Movimentado
Refletidas ficam as palavras de atravessador
Do vazio que coube aos sentidos
Ausentes no desencontro irrefreado
Exilo-me no que lança calado
E deixo sua voz aqui
Esse desejo que me destino seu páreo
O movimento aconteceu
Sem registro
Respinga as almas que temos quebradas
Atravessa-nos as horas com timbre
De escape
Afundando-me sou um outro largado
Esteta na ausência ilhado
Contemplo seu maquinário mítico
Que enguiça a vida
Destampa o céu
Esgota os sentidos de ser
É o movimento que somos
Um do outro detidos
Diz do que não lhe fui aceito
Apenas utilitária é a estadia
Das palavras aqui criadas
Solitariamente





segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Édipo

                                                                 Fotografia: Enigma - Francisco de Assis Xavier Neto


Quem me inscreveu, assim, tamanha falta?
Que desconheço amor que me preencha
E passo a vida percorrendo a minha vida
E não encontro
E não encontro
E não encontro

Quem me organizou neste mundo que é só lei?
Que tanta norma tolhe o meu desejo
E passo a vida entre nãos e impedimentos
E não localizo
E não localizo
E não localizo

O sangue verve, montanha percorrida
Em leitos secos, sangrentos de agonia.
Inscrita no mundo, desafio minha existência
De experiência
Em experiência
Em experiência

Lateja dentro o desejo palpitante
Nada no mundo preenche este segredo
De amor completo que um dia vivenciei,
Mesmo assim amo
Mesmo assim amo
Mesmo assim amo

Por isto corro o mundo, coração vadio,
De porto em porto, vago sem destino
E não encontro
E não localizo
Na experiência...
Mesmo assim amo.

                                                    Mara Medeiros


 
"Quem te inscreveu assim tamanha palavra
Que desconhece poesia que te caiba?
E passo as linhas procurando alguma vida
E sempre encontro
E sempre encontro
E sempre encontro"


Toninho Araújo
 

A dor que deveras sinto



O nosso querer, invisível ao nosso sentir, causou um ruído.
A fissura corrompeu o meu desejo, para além do que pudesses doar.
Me entreguei sem pensar, sem tampouco entender...
Quando dei por mim, uma vez mais, sobrou dor por machucar!




Plínio Alexandre dos Santos Caetano
@pliniocaetano23

Anjos

(parágrafo final da crônica Mudanças)

A partir daquele dia, ela teve certeza anjos são pessoas, que se colocam surpreendentemente bem no meio do caminho, quase que como um obstáculo, obrigando-nos a desviar. Porque muitas vezes, fixamos o olhar num ponto muito distante e traçamos uma reta imaginária até lá, acreditando que aquela é a porta de saída. Mas essa atitude faz com que nós não olhemos para os lados, onde muitas vezes estão as portas que não são da saída, mas de uma nova entrada. 
Luciana Pimenta
@lulypim

Pelas Horas
















Nas madrugadas
Me descrevo
Sou ausência de sono
E excesso de sentir
Ouço canções
Que me sopram versos
Deito nas minhas palavras
E elas me beijam a pele
Embora não me acalmem
As horas são breves
E urgentes se tornam
Pro tanto que tenho sentido
Enquanto acordada me ponho...

Lai Paiva
@lainepaiva


domingo, 27 de novembro de 2011

Amigo Estrangeiro




Tens um sorriso
Que muito pouco te mostras
Sei de longe
Que resguardas
Afago no meio dos olhos
E traz às mãos
Um embalo de vida
Para não se esgotar

Levas adiante
O sonho que entorta
Os caminhos de tuas fronteiras
Entre memórias e esperança
De ternuras sem ter fim
Sabes que no dia
Tens de seguir os mistérios
Que aprendestes a guardar
No coração



Desapego



Diz-me forte
E diz também que quanto mais forte me fazer ser eu tento
Mais minha docura se espalha com o vento
E, com isso, mais meu olhar se torna cinzento.

Hoje, amarga.
E percebi que a doçura que eu porventura tinha
Não era em verdade minha
Apenas disfarce no meu sorriso com covinha.

Tento me desapegar
Mas te deixar ir
Leva também o meu sorrir
E luto para deixar de sentir.

Como não te amar pelo que você é?
Como não mais buscar teu olhar
Se é isso que me faz sonhar
E já me acostumei a por ti esperar?

Por hora, apenas aceito.
Devo agora apenas adormecer
Porque não tem mais onde em mim doer
E esperar, sem muita fé, outro alguém aparecer.

Seria forte, e a força seria minha
Se não tivesse feito do meu coração uma caixinha
E nela guardado tudo aquilo em que me apego
Pois teria sobrado mais que apenas um machucado ego.

Luciana Pimenta
@lulypim

Senda



A José Régio e seu Cântico Negro

Quando esta noite vem
E me diz por onde devo caminhar,
Deixo de me ser – luta por luta –
Até me entregar.

Não vou seguir os mesmos passos
Ancestrais que me maculam a memória.
Vou por outros caminhos
Como quem descobre sua trajetória.

Não vou seguir os mesmos passos,
As mesmas trilhas que me dão.
Abandonarei estas fagulhas,
Estas migalhas, este vão...

Não vou! Nunca irei adiante
Pelas sendas deixadas neste incerto
Vagar de meus destinos;
No silêncio fugaz, meu deserto...

Sou apátrida, maldito e meu verso
Escoa pelos olhos esquecidos
De qualquer imagem, do indefinido
Fantasma que um dia foi passo diverso.

Vou, assim, pela madrugada:
Fagulha do ser, coisa passada.


Mário Gerson

Marrom 4.3




Da última vez eram 43...

Não sei dizer se passaram dias, meses ou anos...
Parei de contar.
Parei de calcular.
Parei de especular.
Começo a examinar.

Levo pro chuveiro, apertada ao peito, a sacola de planos.
Ou seriam sonhos?
Medonhos?
Tristonhos?
Risonhos?
Agora enfadonhos!

No fundo, bem no fundo, há um girassol amarelo.
Era pra ser rosa!
Era pra ser bossa!
Era pra ser fossa!
Era pra ser joça!
Era pra ser troça!
Era pra ser prosa!

A velha sacola se desmancha, pano podre,
Esvai-se entre meus dedos:
Desfaz-se um sonho inteiro...
Despencam os ponteiros...
Agora é pesadelo:
A tinta pra cabelo,
O ralo, o chuveiro!

Olho atordoada para o rio
em tom castanho 4.3.
Arrasta os fragmentos
Da sacola, dos lamentos,
E também dos tais momentos...
Pois que sim, houve momentos,
Uns de contentamentos,
Mais de constrangimentos.

Eu cria cegamente no mundo cartesiano.
Ilusão de ótica!
Ilusão de ética!
Ilusão caótica!
Ilusão patética!
Ilusão compartimentada!

Na tão preciosa sacola
O mundo era plano,
Redondo o sonho,
Fugaz o direito,
Servil o dever.

Percebo a contragosto, nada estava organizado.
Não há perfeição,
Nem compartimentos,
Não há rimas,
Nem contrapontos,
Não há ritmo!

Entre tufos de cabelos tintos em marrom perfeito,
Marrom 4.3 – Chocolate profundo,
Avisto o girassol, em amarelo profuso,
Contraste combinado à cor que engana o mundo.

O girassol sussurra, depois fala, depois grita:
“A vida é essa inquietude,
Essas incertezas, essa mistura de tudo...
Dos sonhos e dos planos,
Do querer, do desistir,
Do ser e do devir.
É esse infinito de horas
Que a tinta nos teus cabelos
Esconde do mundo inteiro,
Mas, não da tua alma.”

“Que desperdício!”,
Penso,
Enquanto morrem os contrastes,
Enquanto a chuva de água e de lágrimas
Cai, torrencialmente, sobre tudo...
Enquanto isto, penso, sobretudo,
Nas canções que não vou tocar,
Nos livros que não vou ler,
Nas bocas que não vou beijar,
Nas flores que não vou ver,
Nas chuvas que não vou tomar,
Nos amores que não vou ter,
Nas coisas que não vou realizar,
Penso, sobretudo, sobre tudo.

Da última vez eram 43...
Não sei dizer se passaram dias, meses ou anos...
Carrego pro chuveiro, apertada ao peito, a sacola de planos.
No fundo, bem no fundo, há um girassol amarelo.
A velha sacola se desmancha, podre pano, olho atordoada para o rio de tom castanho.
Eu cria cegamente no mundo cartesiano.
Na tão preciosa sacola percebo a contragosto, nada estava organizado.
Entre tufos de cabelo tintos em marrom perfeito, o girassol sussurra, depois fala, depois grita:
 “Que desperdício!”




Sondagem de uma insone noite



Madrugada adentro, os gritos presos na garganta se liberam.
O véu sereno da noite vela a insônia obsessiva: não sinto o toque do frio, mas o bafo de um calor extasiante.
E a tensão corrói meu (in)consciente temor: não há nada além da próxima semana, os próximos dias são o contexto de minha vida.
Situação atípica, mas cíclica... o temor do erro, da falha, o medo de seguir novamente pelo caminho mais tortuoso.
Não quero lembrar, o passado já está soterrado pelas novas experiências.
Porém o terror em meus pensamentos, sobrevivente, estará para sempre preso na inconstância e no pavor.
E o silêncio corta novamente o terror, apenas o ventilador dialoga, em zumbido cálido, com minha face. Brotam gotas de suor de minha testa...
A água já não mata a sede, o edredom esquenta, porém sem ele não durmo.
E quando dou por mim, entorpecido pelos pensamentos, já voei para a terra dos sonhos...




Plínio Alexandre dos Santos Caetano
@pliniocaetano23

Geração 21


My generation, século 21, é isto:
muita masturbação e algum sexo selvagem.

Quase nada de amor.

Pequena palavra para emoldurar cenas de telenovelas
para umas poucas donzelas sonhadoras sonhativas sonhopositivas.

Os heróis ainda morrem de overdose,
mas a maioria morre mesmo
é com a barriga proeminente proevidente grudada em uma mesa de escritório,
seus traseiros quadrados em belas cadeiras giratórias giradouras.

Poesia não compensa,
o crime é glorificado.
Sobretudotodos quando é de cima para baixo.

Podem encontrar-se em qualquer parte do mundo,
mas quase nunca alguém
na vida
realmente
se encontra.

Política é a prática mais em voga.
Estamos todos bem,
com nossos aparelhos multitarefas e tarifas irrisórias irrisonhas,
armaduras de speakers e sunglasses,
frases de bem-estar
originárias de romances
psicografados.
Comidinha saudável (saudável?)
e rotina de academia.

Não se preocupe, mãe!
My generation usa flavoured condoms
e pílulas do dia seguite.

E é a gente mais fudida que eu conheço.

Alessandro de Paula
@palavratomica


PS: Certa vez eu editava este texto ao som de Schizophrenia, do Sonic Youth. A Geração 21 preferiria Restart ou algo do gênero.


Leitmotif



Percorrer as ausências
Preditas do meu apontamento velado
Acometer-me de sentidos não atingidos ao gozo
Enfrentamentos dos presságios de medo
Irromper-me de atravessamento volátil que me encontro vazio
A voz que tenho guardo-me no silêncio
E uso meu olho para interditar os fins que por ora foram impostos
Motivos que encontro no descaminho com a vida
São retórica dos despedaços sentidos rasgadamente
Dos crimes calados
Em suas margens aturdidas de pânico e incerteza
Faço-me numa vista grossa de poeta incauto
Exponho-me à ausência procurada por extinguir
E volto-me ao fim que não me alcanço
Repetidamente dizendo do que não tive ao encontro com a vida



sábado, 26 de novembro de 2011

Solitárias Dores





O que deveras dói não é a ferida.
Tampouco a tristeza de ter perdido da razão, ou a calma inconsistente.
De fato doem as razões inexplicadas de sua ausência, o suspiro de minha solidão.
Não posso, tampouco quero, viver sem sentir seu hálito junto ao meu nas frias manhãs...
Talvez, se já não me bastassem os sonhos, poderia viver de querer.
Um desejo insaciável, composto por tudo aquilo que já não mais posso tocar.
Uma vontade ímpar de tudo que já não mais posso provar.
Uma febre intermitente, por todo amor que ainda tenho por compartilhar...




Plínio Alexandre dos Santos Caetano
@pliniocaetano23

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Breu




A noite cai, lentamente.
Permito que a escuridão
do meu íntimo se exponha...

Disfarço no breu nascente
Do anoitecer a solidão
E essa dor tão medonha...

Quisera luz pra semente
poder, enfim, rasgar o chão,
brotar sem dor nem vergonha!

Mas lágrima indiferente
verte o pranto negro e, em vão,
lamenta a noite tristonha.


Mara Medeiros